Expedição Monte Roraima por Sarah Nüssli

Em um destino rodeado de lendas, misticismo e histórias algo é certo: sua grandiosidade e beleza.

A experiência de conhecer o Monte Roraima em uma expedição de 08 dias foi realmente especial. Uma combinação perfeita de aventura, atividade física, espiritualidade e uma natureza implacável! Situado na fronteira do Brasil, Venezuela e Guiana, com 2.800m de altura e 34km² de área de superfície o Monte Roraima é o mais altos dos Tepuis (montanhas em formato de mesa) da Gran Sabana. 

Espiritualidade – Um Retreat em Movimento.

Acredito que uma viagem, além de nos presentear com paisagens únicas e experiências inesquecíveis é também um momento de meditação, interiorização e reflexão. Cada um, dentro de sua realidade, tem o dia a dia preenchido por inúmeros compromissos e afazeres e nem sempre conseguimos parar para refletir sobre as nossas escolhas, sobre quem nos tornamos e se estamos realmente escolhendo o caminho que gostaríamos. 

Uma viagem que combinou longas horas de atividade física, contato intenso com a natureza e zero acesso à tecnologia (celular, luz elétrica…etc.) funcionou como um retiro para mim. Tive tempo suficiente para acalmar a minha mente, me conectar totalmente com a experiência que estava vivendo e sentir muitas coisas. Durante a viagem não me apeguei em encontrar respostas para questões que levava comigo, o meu maior objetivo foi focar 100% no que estava vivendo e confesso que isso aconteceu muito mais fácil do que imaginei, de maneira orgânica. Experimentei uma sensação nova e maravilhosa que me trouxe muita clareza e paz. Recomendo para todos uma experiência deste tipo!

Mindset: quem optar por uma viagem como essa precisa estar desprendido de conforto e “luxo”, coloco entre aspas porque no meu conceito luxo é também poder desfrutar e estar conectada com a natureza, nem que isso me custe algumas noites mal dormidas, picadas de mosquito e visitas de escorpião no meio da noite. Mas é fundamental que a pessoa saiba onde está se enfiando e esteja aberta à experiência, se não pode ser uma furada de muitos dias…

Alimentação e Planejamento

Um roteiro de 08 dias exige uma preparação prévia, principalmente quando pensamos em dias seguidos de atividade física intensa que vão resultar em fome, muuita fome! Ao optar por fechar o pacote com uma agência, eles cuidam de toda essa parte e você ainda tem a possibilidade de sinalizar intolerâncias, alergias e/ou se segue uma alimentação vegetariana/vegana. Essa foi nossa opção e fomos muito bem servidos durante todos os dias: café da manhã, lanche na trilha, almoço, lanche da tarde (melhor hora do dia: pipoca, tapioca..) e jantar. Mesmo contando com “pensão completa” foi ótimo ter comigo alguns snacks.

Não sabia como meu corpo reagiria com uma alimentação diferente do que estou habituada ou se me adaptaria as refeições oferecidas, então optei por preparar alguns kits reforçados de lanches para garantir que teria energia para aguentar as longas caminhadas. 

Como peso é um ponto chave nesta viagem, escolhi alimentos que oferecem bastante energia e pouco volume/peso e que também não precisariam de refrigeração. Minhas escolhas foram um mix de avelã, amêndoas, castanha do Brasil, semente de abóbora, gotas de chocolate 70% e goji berry e para os dias de mais esforço ou para quando batesse a vontade de um docinho, preparei um kit especial com tâmaras, coco, damasco e goji. 

Optei por levar as opções já fracionadas e embaladas a vácuo, além da praticidade, dessa forma não tinha risco da comida molhar, murchar…etc!

Roteiro

Por ser um destino pouco explorado a experiência foi ainda mais especial. A viagem começou em Boa Vista, onde aconteceu o briefing explicando como seriam os próximos dias e na sequencia seguimos para a Venezuela, a maior parte do Monte Roraima pertence a este país e o seu acesso é mais fácil por lá. E lá a viagem realmente começou..

Apesar de uma altura relativamente baixa quando pensando em montanhas, a subida está dividida em três dias. A partir da entrada oficial do Parque até o Tepui são aproximadamente 30km com ganho de altitude, passando por terrenos escorregadios e acidentados, rochas íngremes e rios gelados. Apesar dos obstáculos, a paisagem compensava qualquer dificuldade e o que mais chamou a minha atenção foi o contraste entre a vegetação árida da Savana com a abundante floresta tropical que cobre o pé da montanha até cerca de dois terços do topo, dando lugar depois aos grandiosos e característicos paredões rochosos do Monte Roraima.

Chegando no Topo

Após 03 dias de expectativa e desafios, a emoção de estar no topo do Monte Roraima fez valer todo o esforço! Cada montanha conquistada para quem faz trilha é especial, mas confesso que até agora não consigo explicar com palavras o que senti quando cheguei no topo dessa Montanha, uma emoção tão grande que transbordou em lágrimas. E não fui a única, todo o meu grupo se emocionou, até mesmo nosso querido guia Hernandez que já levou mais de 60 grupos ao Monte dividiu essa emoção conosco neste dia. 

Com as emoções mais controladas o próximo momento foi de pura contemplação e encantamento: um lugar diferente de tudo que já vi e imaginei. Em um cenário inóspito a beleza estava sempre presente nos detalhes, nas pequenas flores e plantas, nas formações rochosas que de acordo com a imaginação davam forma as mais diversas figuras e principalmente na sensação de estar em um mundo paralelo.  

No topo existem alguns “Hoteis”, nome generoso para algumas formações rochosas que servem de base para os acampamentos. Não existe nenhuma estrutura física fixa nestes locais, toda a estrutura é montada no momento da chegada: barracas, cozinha, banheiro..etc! E quem pensa que a aventura acabou ao conquistar o topo está enganado, devido ao seu tamanho se faz necessário alguns dias para explorar o topo. Alguns pontos de interesse são: Mirante La Ventana, Vale dos Cristais, El Foso, Ponto tríplice, Jacuzzis, Pedra Maverik (ponto mais alto, com 2875m e com um mirante de tirar o fôlego), entre outros. Durante os próximos dias nossa programação consistiu em visitar essas atrações e tivemos também um dia um pouco mais tranquilo para o corpo poder descansar e recuperar para a descida. 

Após três noites no topo foi hora de voltar, teríamos mais 02 dias de caminhadas intensas. Apesar da tristeza de ir embora fomos presenteados com um dia lindo de céu azul, o que é muito raro de acontecer no mês de julho (época de chuva). A lenda diz  que Makunaima, guardião do Monte Roraima, determina o clima de acordo com as pessoas que estão visitando o local. De acordo com nosso guia, o tempo aberto simbolizava que todas as nossas magoas e tristezas foram “lavadas” e deixadas para trás e o céu azul simbolizava que nossa alma estava limpa.  O céu aberto nos proporcionou paisagens ainda mais espetaculares e fechou com chave de ouro nossa expedição.

Minhas Sugestões e Dicas:

  • Treino: acredito que qualquer pessoa com um pouco de condicionamento e com um mindset positivo consegue fazer a expedição. Mas o quanto você treinou vai estar praticamente correlacionado com o quanto você vai aproveitar cada momento da viagem. No meu roteiro foram 07 dias de caminhadas intensas, a duração variava de acordo com o ritmo do grupo, mas foram pelo menos 05 horas de caminhada por dia e, em pelo menos 02 dias, foram mais de 09 horas, contando com pausas para fotos, observação de vida selvagem e lanche, afinal é um passeio e não um treino! Inevitavelmente o cansaço chega, nem todas as noites dentro de uma barraca são bem dormidas, a alimentação é diferente do que estamos habituados mas quando estamos fisicamente preparado o cansaço é menor, as dores musculares vão ser mínimas e a recuperação mais rápida também e isso vai refletir no seu humor e na sua disposição para aproveitar os próximos dias!
  • Acessórios: um sapato adequado e confortável para caminhada é primordial e deve ser escolhido com antecedência, para que haja tempo suficiente para  testar e assegurar que o sapato não aperta, não faz bolhas..etc! Outro ponto que impacta muito na experiência: conforto térmico e ter roupas secas para usar no acampamento. O clima do Monte Roraima é bastante específico e em qualquer época do ano os aventureiros podem ser surpreendidos com chuva e muita chuva! Sabendo isso, a escolha de uma boa capa de chuva é uma dica valiosa. Além disso, garantir que as roupas e principalmente o saco de dormir que estão na mochila continuem secos é fundamental, uma opção prática e que funcionou bem comigo foi usar sacos stank. E o famoso “menos é mais” faz todo sentido aqui, principalmente quando você precisa carregar sua mochila por 08 dias. O ideal é optar por roupas com tecnologia que garantem conforto térmico, não são pesadas e não tem muito volume. Para as caminhadas do dia a dia, o ideal é optar por manga comprida e roupas que sequem rápido, visto que sol e chuva serão companheiros certos durante a caminhada.
  • Se dedique em pesquisar sobre agencias que oferecem o trekking e certifique-se que você está escolhendo uma boa opção. Serão muitos dias longe de qualquer infraestrutura e tecnologia, dependendo apenas da logística planejada pela agência. No meu conceito uma boa agência é aquela que preza pela segurança, respeita o turista e o seu staff, está preparada para imprevistos e tem know-how e prática no que está fazendo. Fui extremamente feliz na escolha da minha agência (Roraima Adventures) e acredito que isso contribuiu muito com a minha experiência no geral. Consegui aproveitar o máximo porque estava tranquila por estar em “boas mãos” e sabia que todos os demais que estavam envolvidos na nossa expedição (barracas, alimentação, mochilas pessoais..etc) estavam recebendo o mesmo tratamento que o nosso*.

*Esse é um ponto muito delicado e, na minha opinião, merece toda a nossa atenção no momento de escolher uma agência ou guia. A situação atual da Venezuela é muito triste e o que encontramos lá são pessoas aceitando qualquer condição de trabalho para ter o que comer. Com isso, infelizmente, algumas agências acabam se beneficiando e repassando essa “redução” de custo para os pacotes.

São os nativos que fazem o planejamento da agencia acontecer, eles levam as barracas, a comida e para quem optar por ter um carregador pessoal, as mochilas também. Eles são habituados subir o monte levando carga e tem isso como fonte de renda. Confesso que no começo fiquei um pouco desconfortável com a situação mas conversando com eles entendi que essa é a maneira deles garantirem renda e eles gostam do que fazem, amam estar na montanha. Independente disso, acredito que nosso papel é garantir que eles não levem mais peso do que o estipulado, que eles recebam a mesma alimentação que os turistas e sejam remunerados de acordo com o estipulado pela associação do parque e etc.

 

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